Versos esquecidos  


CANTO PARA FORTALEZA ADORMECIDA

Arde esta madrugada que transformaste em leito

Onde espreitas a dor aguda de quem "ama"

Onde amamentas e divinizas teus marginais

Em santos da inconsequência.

Teu silêncio impõe aos meus sapatos furados

A doutrina dos paralelepípedos

E se não houvesse tantos desejos nos sonhos dos que dormem,

Eu diria que és feliz

Atrás das tuas vitrines

E paredes de alvenaria.

A quietude quebrou todas as máscaras,

Mesmo as forjadas de concreto.

Agora velo-te

E piso firme no teu cancer cérebro-racial,

Na tua úlcera metropolar

E beijo na face de tua lepra nordestina.

Dorme, cidade triste,

Com tua aquarela de espectros

Num sonambulismo mudo

Tal qual casa abandonada.


Escrito por Jorge às 07h38 [   ] [ envie esta mensagem ]





ESQUECER VOCÊ

Vai ser fácil esquecer você!

Basta não olhar o céu,

Não lembrar do mar.

Vai ser fácil esquecer você!

Basta esconder a simpatia,

Abandonar a ilusão,

Mascarar a alegria,

Viver na solidão.

Vai ser fácil esquecer você!

Basta não lembrar o seu sorriso,

Seu corpo molhado,

Seu meigo olhar.

Vai ser fácil esquecer você!

Basta nada olhar ... nada lembrar,

Esquecer sua importância na minha existência,

Vai ser fácil esquecer você!

Basta eu mesmo

ESQUECER DE MIM!


Escrito por Jorge às 15h57 [   ] [ envie esta mensagem ]





POR QUE VOTO NULO?

Se eu escolhesse este ou aquele político, talvez elegesse um ovo sadio para colocar na cesta de ovos podres. E todos sabem o que acontece...O problema não é que alguns políticos são podres. O problema é que a maioria está com costumes apodrecidos. Basta ver como votam e se protegem uns aos outros. Como conservam seus privilégios e suas impunidades até por crimes comuns. Por isso, voto nulo: quero dizer com meu voto que sou contra a podridão e não contra este ou aquele político podre.

Votar Nulo resolve?
Não, mas já é um começo. É um recado claro de que já sabemos que não adianta só eleger. Que queremos fiscalizar, que queremos voto optativo, que queremos o fim da impunidade, que queremos poder tirar de lá quem nos enganou, que queremos votar as nossas leis, que queremos menos impostos, menos governo, que queremos partidos responsáveis, que queremos poder eleger candidatos independentes dos partidos, que queremos ser cidadãos e não súditos. O Voto Nulo é só um recado. É só um começo. Mas já é alguma coisa. É o começo de uma tomada de consciência.
 

Escrito por Jorge às 08h07 [   ] [ envie esta mensagem ]





Versos esquecidos,

Quando poemas são publicados, levam consigo um conjunto de formas e artifícios para que criem um sentido fixo e uno que faça denotar o objetivo para o qual e pelo qual eles foram escritos. Já o "sentido fixo" deste blog não se prende a uma só unidade. Ele pode estar em muitos lugares: nos becos escuros, nos cabelos suarentos da noite, no corpo frígido da madrugada, na agonia de uma criança faminta num quarto de favela, na angustia dos indigentes, no silêncio profundo de um grito de morte, na blenorragia política do povo, nos calabouços de pedra e ferro, nos calabouços de alma e carne.

O autor


Escrito por Jorge às 12h28 [   ] [ envie esta mensagem ]





A lágrima

- Faça-me o obséquio de trazer reunidos
Cloreto de sódio, água e albumina...
Ah! Basta isto, porque isto é que origina
A lágrima de todos os vencidos!

-"A farmacologia e a medicina
Com a relatividade dos sentidos
Desconhecem os mil desconhecidos
Segredos dessa secreção divina"

- O farmacêutico me obtemperou. -
Vem-me então à lembrança o pai Yoyô
Na ânsia física da última eficácia...

E logo a lágrima em meus olhos cai.
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai
Do que todas as drogas da farmácia!


Escrito por Jorge às 12h12 [   ] [ envie esta mensagem ]





A idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!


Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!


Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...


Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica


Escrito por Jorge às 12h11 [   ] [ envie esta mensagem ]



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03/10/2004 a 09/10/2004
26/09/2004 a 02/10/2004


 
 




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